Durante o 17º Festival Mundial de Publicidade de Gramado, o publicitário Jomar Pereira da Silva Roscoe foi reeleito presidente da regional brasileira da Associação Latino-Americana de Agências de Publicidade (Alap), entidade que conta com 250 empresas associadas no País. Com 68 anos, o mineiro radicado no Rio de Janeiro tem a missão de incentivar a preservação do papel de vanguarda da publicidade brasileira na América Latina.
Em entrevista ao Jornal do Comércio, Roscoe comenta os efeitos da crise econômica sobre o setor publicitário brasileira. Otimista, o presidente da Alap acredita que o segmento deverá fechar o ano com crescimento de 4% na receita e lembra que o principal desafio das agências é se adequar à revolução tecnológica sem perder a criatividade e a eficiência de resultados.
Jornal do Comércio – Como a crise atingiu o setor de publicidade no Brasil?
Jomar Pereira da Silva Roscoe – O primeiro semestre de 2009 está sendo muito difícil para os negócios, em consequência dos últimos meses de 2008, que foram negativos. Agora devemos entrar em um processo de recuperação e de adaptação às novas realidades. O maior problema para o setor é que, na verdade, atravessamos duas crises, a real e a psicológica, sendo que esta última é mais danosa. Quando as pessoas estão contaminadas apenas com a possibilidade de que sejam afetadas em suas atividades normais, elas começam a se comportar como se a crise já tivesse lhes atingido. Portanto a publicidade tem o papel essencial de combater esse “sentimento de crise”, que chega a ser mais grave que os problemas reais.
JC – Há motivos para ser otimista em relação ao resto do ano?
Roscoe – Já existe uma recuperação nítida da economia, e a publicidade vai obviamente participar desse processo, inclusive estimulando para que essa reação seja mais acelerada. O pior da crise realmente já passou, vários indicadores já demonstram que haverá uma alteração para melhor, então a publicidade vai estimular e reforçar estas tendências.
JC – Quanto o setor deve crescer até o final do ano?
Roscoe – Acredito que o setor vá crescer 4% no segundo semestre, mas o resultado pode ser superior a isso. Ele deve superar o crescimento econômico do País, devido ao fator de alavancagem de negócios exercido pela publicidade, que faz com que nosso segmento evolua num índice maior do que a própria economia.
JC – Quais os principais desafios que o setor publicitário brasileiro enfrenta atualmente?
Roscoe – O maior problema das agências é esse momento de mudanças e incertezas que vivemos devido à revolução tecnológica. No Festival de Publicidade de Gramado, todos os palestrantes foram unânimes em colocar as relações com as novas mídias e seu impacto nos meios de comunicação tradicionais como o principal desafio da publicidade.
JC – As empresas brasileiras estão preparadas para enfrentar estas mudanças?
Roscoe – Esse é um momento de oportunidade para as empresas que estão mais consolidadas. Algumas estão preparadas para as mudanças, porque são mais amadurecidas e sabem que estamos vivendo uma fase dura nos negócios. Estamos vivendo uma época que combina uma crise econômica com o início de novas mídias e novos desafios. Temos que conviver com uma grande oferta de oportunidades, de meios de comunicação que estão surgindo, ao mesmo tempo em que somos forçados a investir de forma cada vez melhor a verba do anunciante a fim de melhorar o retorno, o que é uma situação desafiadora.
JC – Qual seria a solução para esse impasse?
Roscoe – O caminho é a criatividade. Qualquer que seja o meio ou momento, a tônica da inovação e criatividade deve prevalecer sempre. No entanto, é preciso que ela seja usada sempre visando a resultados. Não se pode ser criativo apenas pela brincadeira, por “ser engraçado”, é necessário fazer publicidade criativa e consistente que dê resultados.
Otimismo no Brasil contrasta com a preocupação no exterior
Para o setor publicitário brasileiro, o ano de 2009 deverá fechar de forma positiva. Os profissionais da área esperam que o próximo semestre feche o ano com uma elevação de 4% a 8% na receita. “Temos uma sinalização de reaquecimento do mercado em segmentos específicos, como de automóveis, eletrodomésticos e imobiliário, o que gera otimismo”, informou Alexandre Brandão Skowronsky, presidente do 17º Festival Mundial de Publicidade de Gramado.
Entretanto, essas expectativas apontam uma redução no crescimento em comparação com 2008, quando a receita de publicidade no Brasil subiu 12%, chegando a R$ 58,11 bilhões, de acordo com o Ibope. “O mercado publicitário resistiu bem ao período de turbulência, e, embora não se possa dizer que não tenha sofrido, a tendência agora é de estabilidade com algum crescimento”, afirmou Hiran Castello Branco, presidente do Conselho Nacional de Propaganda (CNP).
Se no Brasil o otimismo é generalizado, no exterior o setor vê o ano com cautela. Somente nos Estados Unidos, a queda na receita do setor publicitário deve chegar a 13% em 2009, de acordo com Christian Lüerzer, sócio da revista Lüerzer’s Archive, uma das principais publicações mundiais de propaganda. A queda no faturamento chega até mesmo a afetar as premiações do setor. “As inscrições para o Festival de Publicidade de Cannes, que são caras, caíram 20% em relação ao ano passado, o que é outro indicativo do momento pelo qual passam as empresas”, apontou.
As dificuldades sofridas pela publicidade norte-americana são confirmadas por Neal Davies, da agência Naked, de Nova Iorque. “Muitas pessoas perderam os empregos, muitos clientes pararam de investir, estamos vivendo tempos muito desafiadores”, afirmou. No entanto, Davies acredita que a crise também cria condições para que as empresas do setor reflitam sobre a eficácia de seus trabalhos, forçando os profissionais a encontrar soluções que tenham reflexos diretos nos negócios de seus clientes.
“O importante é que as agências não digam que, para enfrentar a crise, farão o mesmo que realizaram no ano passado, mas em menor quantidade. O que temos que fazer agora são anúncios mais criativos e que realmente funcionem”, destacou.
Fonte: Jornal do Comercio
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